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Sendo reducionista, temos para com as coisas duas posturas. Ou ela é positiva ou é negativa. O problema de tal reducionismo é a forma como se relaciona ao positivo ou negativo uma postura moral, sendo-nos impossível dissociar nossa apreensão sobre elas do mundo social simbólico que é o mundo da cultura. A abstração nesses polos podem chegar a alturas impalpáveis, a discussões sobre ética feitas pela filosofia, por exemplo.
Essa semana assiti a uma palestra sobre bioética - tema da semana de filosofia da Ufam - que gerou mais uma polêmica banalizada: o vegetarianismo. O palestrante falou basicamente sobre a posição do Peter Singer de uma consciência utilitarista das questões que envolvem a matança e pá e tal. Enfim, isso não vem muito ao caso, porque o mais interessante foi a repercussão do que estava sendo proposto. Como ninguém estava muito afim de ir até o fundo e abrir mão das suas premissas - ouvi com pasmeira a minha colega chamar o palestrante de nazista e ainda não entendi como aquela configuração se formou na cabeça dela... - as coisas ficaram no nível da afetação. Seria interessante pensar sobre o imaginário, como o G. pensou, da ética nesse aspecto. Porém o que mais me intrigou nisso tudo foi pensar que uma postura ética spinozista daria conta disso para mim. Digo, seja pato, peixe, ostra, macaco, prima, flor, amigos, pais, teu namorado (a), filho...o que importa é deixar-se fluir.
Estando no plano dos confrontos de corpos, nunca saímos impunemente de um tropeço. Alguns (e a metáfora do Fausto quer mostrar isso na modernidade) saem por aí dando ponta pé, abrindo sua passagem no terçado sanguinolento, outros gentilmente pedem passagem mas, se não lhe dão, empurram e esperneiam, outros contornam sem ter contato algum e outros infelizmente param ali para o resto da vida. Pensar assim exclui uma discussão que poderia ser apropriada: o amor. O supremo amor. será que a ética do Spinoza era mesmo apenas uma teoria matemática? Mesmo sendo, isso significa o que? "Mas isso é teórico demais", disse ele um dia para mim, sobre o sorriso dos amantes...E então entramos na criação. Criar possibilidades de agir a teoria que é tão existente quanto essa realidade construída também se apresenta como trajetória caótica do fluir positivo da vida.
Daqui quero agora puxar a fala do Júlio Lemos, o moço prendado do Feliz Nova Dieta linkado ali do lado. Seus ditos sempre me enchem de entusiamo há anos, por concordar com ele quase sempre, nas suas sensibilidades do mundo. Sua dieta é uma dieta buscada por mim e que de certa forma me fez aderir ao vegetarianismo. Não, a culpa do meu vegetarianismo não é da dieta do Júlio, mas para mim existem aproximações.
Bem, em post de hoje (14.11) Júlio trouxe à cena uma personagem para falar de conhecimento próprio, verdades sobre si e sobre o outro, como nos enredamos nesses aspectos. A personagem consiste naquele tipo que consegue ter um olhar atento e analítico para as misérias do mundo, um personagem "sóbrio", poderia dizer - sem deixar de me comprometer com coisas com as quais não tenho a intenção de me comprometer a priori. Pretty girls make graves (banda mais ou menos, por sinal, rá), de fato. Esse assunto me é muito caro por se aproximar da visão junguiana que eu tenho. Então vamos às aspas:
"O conhecimento próprio é um imenso poder; com ele a pessoa pode tanto demolir a si mesma como começar, finalmente, a dar passos práticos na direção certa. Muitos ficarão a vida toda no cinismo teórico, celebrando-o qual escravos do seu próprio orgulho. Outros cessarão a destruição e, finalmente, olharão para si mesmos, abandonando sua autopiedade com realismo: isso eu posso fazer, e é necessário começar imediatamente. E virão as medidas práticas, palpáveis, reais, ditadas pela prudência. E então a criança pára de chorar e de jogar a toalha. E limpa as lágrimas, em sinal de vitória – o círculo vicioso foi quebrado."
Belíssimo. É justamente essa discussão que estava fazendo sobre infantilismo tempos atrás nas portas fechadas da minha intimidade. Nem tão fechadas como o blog pode mostrar. E o Júlio conseguiu resumir minha afetação sem nem ao menos ter falado uma vez sequer em Jung - o que é ótimo. E ele finaliza da seguinte forma:
"Isso prova que o mais difícil é abandonar as mentiras que contamos para nós mesmos. Essas mentiras crescem, formam uma rede e nos dominam. Mas é sempre possível admitir que “sou mesmo um canalha”, dando nome aos bois. O caminho fácil consiste em prosseguir na mentira, sempre confortável, supercool, socialmente – embora apenas na superfície – admirada. O bem é sempre árduo, embora a mentira cause, isso é fato, sofrimentos indizíveis a longo prazo, e até a loucura completa"
"Isso prova que o mais difícil é abandonar as mentiras que contamos para nós mesmos. Essas mentiras crescem, formam uma rede e nos dominam. Mas é sempre possível admitir que “sou mesmo um canalha”, dando nome aos bois. O caminho fácil consiste em prosseguir na mentira, sempre confortável, supercool, socialmente – embora apenas na superfície – admirada. O bem é sempre árduo, embora a mentira cause, isso é fato, sofrimentos indizíveis a longo prazo, e até a loucura completa"
Ora, ninguém disse pra gente, quando viemos à consciência de nós, heideggerianamente falando, que seria fácil. O problema é que poucas pessoas, ao se confrontar consigo mesmo, reconhece isso como uma verdade a ser levada em consideração.
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